Em Gaza, a vida carece de uma noção de segurança 

Em Gaza, a vida carece de uma noção de segurança 17 de maio de 2021 às 16:58 | Publicado em: Artigo, Israel, Opinião, Oriente Médio, Palestina, Slide Grande Jovem palestina em lágrimas após bombardeio israelense contra a Cidade de Gaza, 16 de maio de 2021 [Mohammed Abed/AFP via Getty Images]Yasser Abu Jamei17 de maio de 2021 às 16:58Após os bombardeios de sábado (15) no coração da Cidade de Gaza, matando ao menos 43 pessoas, incluindo dez crianças e dezesseis mulheres, os palestinos de Gaza mais uma vez enfrentam memórias traumáticas. As atrocidades que ocorrem agora trazem lembranças. Aviões de guerra israelenses destruíram nossas famílias de modo tão hediondo que a imagem permanece conosco por décadas e décadas. Por exemplo, foi assim por três semanas consecutivas, durante a chamada Operação Chumbo Fundido, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009; e por sete semanas, entre julho e agosto de 2014.Escombros de quarteirões inteiros e enormes buracos na Rua Alwehdah, onde há uma semana a vida transcorria normalmente, são imagens traumáticas que evocam memórias de atrocidades passadas.Hoje, há centenas de feridos carregados a hospitais superlotados que carecem desesperadamente de suprimentos, após anos e anos de cerco israelense. Esforços comunitários continuam em curso para resgatar os sobreviventes nos escombros.ASSISTA: Uma menina chora de medo em bombardeio e diz à mãe: “Não quero morrer”.Entre os mortos: Moen Al-Aloul, psiquiatra aposentado que tratou milhares de palestinos no Ministério da Saúde de Gaza; Raja Abu-Aloud, psicóloga assassinada junto de seu marido e filhos; e Aymand Abu Alouf, consultor médico que liderava a equipe de combate ao covid-19 no Hospital Shifa, junto de sua esposa e seus dois filhos.Memórias dos traumas passados são impossíveis de esquecer porque nos falta, a todos nós em Gaza, uma noção fundamental de segurança. Os drones israelenses jamais deixaram de sobrevoar os céus acima de nossas cabeças, desde a ofensiva de 2014. Bombardeios continuaram em noites aleatórias, frequentes o bastante para sempre nos recordar daquilo a que fomos expostos e voltaremos a sê-lo.O ataque do fim de semana ocorreu sem alerta — mais outro massacre. Na noite anterior, dez pessoas foram mortas, incluindo oito crianças e duas mulheres. Uma família de sete pessoas foi devastada, salvo o pai e um bebê de três meses. O pai sobreviveu por não estar em casa e o bebê foi resgatado dos escombros, protegido pelo corpo da mãe.Não são imagens novas na Faixa de Gaza, lamentavelmente. Trata-se de algo que continua a acontecer ao longo das sucessivas ofensivas israelenses. Durante os bombardeios de 2014, relatou-se que 80 famílias foram mortas sem nenhum sobrevivente, cujo óbito foi registrado apenas posteriormente. Em 2014, um único ataque de Israel destruiu o edifício de três andares que pertencia à minha família, deixando 27 mortos — dentre os quais, dezessete crianças e três mulheres grávidas. Quatro famílias foram simplesmente varridas da existência. Um pai e um menino de quatro anos foram os únicos sobreviventes.Agora, os relatos e receios de uma possível invasão por terra são demais para nós, outra lembrança do horror que enfrentamos.Mortos em Gaza por ataques de Israel continuam a aumentar [Sabaaneh/Monitor do Oriente Médio]Um ataque bárbaro compreendeu 160 jatos combatentes por mais de 40 minutos nas áreas mais ao norte da Faixa de Gaza. Na mesma hora, bombardeios de artilharia — 500 cápsulas — atingiram a região leste da Cidade de Gaza e áreas ao norte. Muitas casas foram destruídas, apesar da maioria de seus residentes conseguirem escapar no último momento. Estima-se que mais de 40 mil pessoas correram às escolas da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) ou casas de parentes em busca de abrigo.Para a maioria dos palestinos de Gaza, trata-se de uma lembrança da primeira onda de ataques, em 2008. Era sábado, às 11h22 quando sessenta jatos combatentes começaram a bombardear a Faixa de Gaza e aterrorizar seus habitantes. Na ocasião, a maioria das crianças em idade escolar estava nas ruas, retornando para a casa após o turno da manhã, ou a caminho da escola para o turno da tarde. Crianças começaram a correr apavoradas enquanto seus pais aguardavam aflitos em casa, sem saber o que ocorreu a seus filhos.O deslocamento de famílias inteiras pela ofensiva em curso é outra recordação dolorosa de 2014, quando 500 mil pessoas sofreram deslocamento interno. E mesmo após o cessar-fogo, 108 mil pessoas não puderam retornar às suas casas destruídas.Os palestinos têm de lidar agora com os gatilhos destes traumas prévios e outros além. A situação dificulta o processo de tratamento e cura e, em muitos casos, traz uma recaída de sintomas. Tentamos sempre esclarecer que os palestinos de Gaza não vivem em síndrome de estresse pós-traumático, pois sua condição permanece vigente e demanda ainda maior atenção, com a intervenção certa – não somente clínica, mas sim moral e política. Uma i

Fonte: Em Gaza, a vida carece de uma noção de segurança – Monitor do Oriente

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